Lágrimas no silêncio... Talvez a noite ela devesse se preocupar menos em fingir e ser mais ela mesma, de frente para o espelho ela sabia que a realidade física não era fiel a sua realidade emocional, não mais pelo menos.Tentar manter o controle todos os dias só mostraria o quanto já estava perdendo em disparado, assumir que perdera talvez subverteria esse resultado e a faria sentir se vencedora, não há otimismo que cure a dor quando não estamos convencidos é verdade, mas um pouco de aceitação era necessária, isso era verdade.Horas na frente do espelho não mudaria sua vida, mas levantar se da cama naquele dia de sol sim, precisava trabalhar a tarde toda e só sairia à noite.
Todos os dias passava infinitas horas em frente ao espelho, olhando incrédula seu corpo, como podia estar tão gorda? Mal comia e já verificava no espelho se as gorduras e carboidratos estavam fazendo efeitos, isso porque já verificara antes quantas calorias consumira.
Nada que exercícios punitivos não resolvessem. No mais, a vida era um vômito de ódio desconexo, fatos rápidos, uns atrás dos outros, todos desrespeitando sua individualidade e sua realidade particular, te inserindo no cotidiano de forma dolorosa... O ônibus lotado, o metro, as conversas que não queria ouvir, o trânsito, o aperto, sufoco e falta de ar. A pressão e a cobrança eram um pequeno adicional daquilo tudo, mas o pior era estar perto dos outros, sentindo o ódio e o desespero escorrer, a conta gotas...
Se pudesse optaria por fugir, mas não podia, então foi obrigada a ficar ali e ser forte, forte é o nome que damos as pessoas que não vemos chorar, mesmo sem saber como elas são antes de se levantar, trancadas nos seus quartos, banheiros ou se olhando no espelho.
Todo seu ódio era uma verdade constante em sua vida, e todo seu ódio era uma mentira, construída pela sua mente, que diferença isso faria na hora de desconstruí lo?
Por onde começar? Pela verdade ou pela mentira ?
Entre sujeito e objeto,havia uma possível relatividade de realidade que a fazia pensar se devia aceitar seu ódio ou tentar amenizá lo ( o que aumentaria isso ainda mais, quão absurdo isso é ? ).
Decidiu que não deveria mais se questionar, a vida não tem mesmo nexo... foi trabalhar.